segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A UMA PASSANTE - Charles Baudelaire (1821 - 1867)



A rua ao meu redor fremia num rugido.
Longa, esbelta, de luto, uma dor majestosa,
Uma mulher passou, a sua mão faustosa
Levantando, agitando a barra do vestido.

A perna de estatuária - ágil, nobre, atrevida.
Eu, eu bebia, em desvairada crispação,
No seu olho, céu claro ou germe de tufão,
O dulçor que fascina e o prazer que liquida.

Clarão...noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez renascer de repente,
Não te verei jamais senão na eternidade?

Além, bem longe! É tarde! Ou nunca, certamente!
Pois ignoro aonde vais, e ignoras aonde irei -
Ó tu que eu amaria, ó tu que o sabes bem!


(Trad. Renato Suttana)

domingo, 17 de janeiro de 2021

COMO ESTUDAR? - Marcello Gama (1878-1915)

Como estudar? 

Toda a gente me diz: Marcello estuda! 
 mas como hei de estudar, pensando em ti? 
Ha duas horas que este livro abri, 
e espero em vão que o raciocínio acuda. 

Pagina 36... nada entendi. 
Volto a reler aquillo que já li: 
de ti meu pensamento não se muda. 

"Marcello estuda!" e leio, e leio... 
Mas para que? Se a tudo fico alheio, 
como se lesse alguma lingua estranha... 

Deixo o livro, sem ter nada entendido. 
E que sei eu, de tudo que foi lido?! 
- que és a mulher mais linda que o sol banha!

sábado, 11 de julho de 2020

DE VOLTA - Nestor Victor (1868-1932)

Voltar do mundo assim desilludido
       Depois do crime feio,
E o pequeno remorso aborrecido
       Á porta, mal se veio !...

Si um Satanaz, ao menos, realisasse,
      Assombradora, a gente,
E então, grande, o Remorso se elevasse
      Terronficamente!

Mas nem Deus nem Demônio! Confundido
      Com os mais, trivial e frouxo,
Se arrasta a inútil vida, aborrecido
      Incompletado, coxo!...

Não!... longe da terra e da torpeza!
     Vamo-nos para o Sonho!
— Ideal! Ideal! tanta fraqueza
     Fortalece risonho!

Arte, oh ! nobre avára! arca bemdita
     Do Escolhido, no mundo!
Abriga para sempre esta alma afflicta
     Em teu seio profundo !


1888

sexta-feira, 19 de junho de 2020

NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM! - Fagundes Varella, 1841-1875

Não te esqueças de mim, quando erradía
Perde-se a lua no sidéreo manto;
Quando a brisa estival roçar-te a fronte,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando escutares
Gemer a rôla na floresta escura,
E a saudosa viola do tropeiro
Desfazer-se em gemido de tristura.

Quando a flôr do sertão, aberta a medo,
Pejar os ermos de suave encanto,
Lembre-te os dias que passei comtigo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando á tardinha
Se cobrirem de névoas as serranias,
E na torre alvejante o sacro bronze
Dôcemente soar nas freguezias!

Quando de noite, nos serões de inverno,
A voz soltares modulando um canto,
Lembre-te os versos que inspiraste ao bardo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando meus olhos
Do sudario no gelo se apagarem,
Quando as roxas perpetuas do finado
Junto á cruz do meu leito se em balarem.

Quando os annos de dôr passado houverem,
E o frio tempo consumir-te o pranto,
Guarda ainda uma idéia a teu poeta,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

terça-feira, 9 de junho de 2020

[AQUI...] - Paulo Leminsky (1944-1989)

aqui

nesta pedra

alguém sentou
olhando o mar

o mar
não parou
pra ser olhado

foi mar
pra tudo quanto é lado

[TRAGAM AQUI, MEUS RAPAZES...] - H. P. Lovecraft (1890-1937)

Tragam aqui, meus rapazes, seus canecos de cerveja
E bebam ao dia de hoje, antes que já não mais seja.
Encham seus pratos de bifes, empilhando-os em montanha,
Pois só beber e comer é o que da vida se ganha.
        Encham cada taça,
        Pois a vida passa,
E depois ao rei e à amada não há quem brinde faça.

O nariz de Anacreonte era vermelho, se diz;
Mas o que é um nariz vermelho quando se é alegre e feliz?
Melhor ser vermelho agora - Deus me castigue! - que estar
Branco como um lírio ou morto antes de o ano acabar!
        Venha, Betty, em festa,
        Beije-me na testa;
Filha de estalajadeiro no inferno não há como esta!

Que o jovem Harry ainda esteja de pé nos causa surpresa,
Logo há de perder a linha e entrar debaixo da mesa;
Mas encham bem suas taças, passem, nas de mão em mão,
Melhor embaixo da mesa do que debaixo do chão!
        Que reine o festim,
        Que bebam por mim:
Sob sete palmos de terra não se ri tão bem assim!

Que o diabo me carregue, se mal me aguento de pé
E, com todos os demônios, se de mim ainda dou fé!
Aqui, patrão, mande Betty chamar um carro, que eu vou
Correr para casa, enquanto minha esposa não chegou!
        Alguém me sustente,
        Antes que eu me sente:
Que enquanto em cima da terra estou feliz e contente.


sexta-feira, 22 de maio de 2020

O CORAÇÃO - Castro Alves (1847-1871)

O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um - tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro - voa em mais virentes balças,
Pousa de um rio na rubente flor.
Vive do mel - a que se chama crenças -,
Vive do aroma - que se diz - amor. -


Recife, 1865